4.7.06

[5]

Volto na sessão seguinte, nem sei bem porquê. Talvez por curiosidade, talvez porque me sinta tão só que a presença de tantos corações solitários me divirta. Mas a certa altura sinto que não pertenço ali, que me estou a enganar e, pior que isso, a enganá-los. Chamo a orientadora à parte e digo-lhe que não devia estar ali, vim apenas em substituição de um amigo. Ela sorri, e pela primeira vez reparo nela. Tem uns belos olhos esverdeados e um nariz generoso. Os lábios são bem desenhados e abrem-se com facilidade num sorriso que parece virar-se para dentro, como se ela risse de si mesma. Talvez eu deva ir-me embora, continuo. Se é isso que quer, responde-me sorrindo ainda. Pergunto-lhe porque sorri tanto e ela diz-me que também ela está em substituição de uma amiga, e também ela lhe apetecia ir embora. Talvez os nossos amigos se devessem encontrar os dois, digo eu de repente, e ela olha-me muito séria, o sorriso apagado, e ri uma gargalhada álacre e quase estridente que me encanta. Mas o ar sério retorna, apenas os olhos brilham ainda, e pergunta-me o que quero fazer. Respondo-lhe sem hesitação.

E que tal jantarmos os dois?

29.5.06

[3]

Quando chego à agência de encontros fazem-me entrar para uma sala onde se encontra uma dúzia de pessoas, homens e mulheres, e explicam-me as regras. A ideia é que falemos com todas as pessoas do outro sexo – há um igual número de homens e mulheres – e nos apresentemos brevemente. Podemos ainda fazer as perguntas que quisermos e respondermos às que nos fizerem. Depois de um período de tempo adequado será dado sinal para trocarem de par, continuam, até que todos se tenham conhecido. No final preencherão um boletim com as vossas preferências. Não se esqueçam de tomar notas, dizem como última recomendação, e entregam-nos um pequeno bloco e uma caneta. Olho em redor. A diferença de idades é notória. O mesmo quanto à evidente diferença social. Fico a pensar como terá sido formado este grupo que se afigura tão heterogéneo.

23.5.06

[1]

Conhecemo-nos através de uma agência de encontros. Mas o mais curioso é que nenhum de nós tinha solicitado esse serviço. Na verdade, aceitámos ambos ir em substituição de amigos, ainda que por motivos diferentes.

Os koalas

1

Cada vez que pensava na forma como se tinham conhecido, lembrava-se de uma frase que lera num romance de que guardava uma vaga memória. A imprecisão com que recordava a história estendia-se, de resto, à própria citação, que não poderia reconstituir com fidelidade mas apenas no seu sentido geral. A ideia da frase era, basicamente, que "a vida não é geométrica porque, se o fosse, duas linhas paralelas não chegariam a encontrar-se a não ser no infinito".


2

Gasto muito do meu tempo a pensar nas pequenas coisas da vida, a imaginar o que só imaginando se pode descobrir, como as relações entre as coisas e os mecanismos que as concretizam. É esta ocupação a que me entrego com frequência que faz com que as pessoas que me conhecem se dividam em classificar-me entre sonhador e melancólico. Na verdade, não sou uma coisa nem outra, sou apenas uma pessoa que gosta de se interrogar sobre o sentido da vida, não dos grandes mistérios, mas dos pequenos, pequeníssimos mistérios da vida, como os que ditam os encontros e os desencontros entre as pessoas. As misteriosos linhas que unem as pessoas, como naqueles passatempos em que unindo os pontos numerados surge uma imagem oculta, sempre me fascinaram. Não procuro nem acredito em explicações, gosto apenas de seguir o desenho desses encontros, que em tudo contrariam as regras da geometria. E na maior parte das vezes isso só se consegue usando a imaginação.


3

Conheci-o num colóquio sobre os desafios da imprensa na era da globalização. Ele tinha acabado de publicar um livro sobre a sua experiência enquanto repórter de um semanário de referência e eu, que naquela época ainda estudava comunicação social, fui pedir-lhe um autógrafo. A história poderia ter ficado por aí mas, como a geometria da vida é incerta, aconteceu que os nossos percursos se voltaram a cruzar, algum tempo depois, num contexto completamente diferente.


4

Falo todos os dias com imensas pessoas de que me esqueço no momento seguinte. E não é que não lhes dê atenção, estou tão habituado a não as voltar a ver que nada faço para me lembrar delas. São tantas as circunstâncias que nos afastam das pessoas, pelos menos de um conhecimento mais profundo, que nem vale a pena combatê-las. Com ela não foi diferente, estendeu-me o meu último livro, eu perguntei-lhe o nome, disse-me que estudava comunicação social, desejei-lhe sucesso profissional, sorrimos, ela pareceu ir dizer qualquer coisa, eu fiquei à espera, mas ela limitou-se a aceitar o livro que lhe estendi e a dizer obrigada antes de se ir embora. Fiquei a vê-la ir; bela, jovem, o andar firme e decidido mas não desprovido de charme. Quando a voltei a ver nem por um momento pensei que fosse a mesma mulher, mas continuava bela, jovem, o andar firme e decidido mas não desprovido de charme.


5

Foi um encontro improvável, ou se preferirem, anti-geométrico.

Ela estava em frente aos koalas, no jardim zoológico; tinha acabado de ler o texto impresso a branco sobre acrílico verde que relatava pormenores acerca da vida daqueles pequenos mamíferos. Tinha passado o dia inteiro com um colega da televisão, a recolher imagens para uma reportagem sobre o zoo de Lisboa que, mais uma vez, se deparava com falta de meios para sobreviver. Sentia-se exausta mas, ainda assim, disse ao colega que ele podia ir, mas ela ficava mais um bocado, a tentar organizar o texto. No entanto, sentia-se demasiado cansada e deprimida para trabalhar. Depois de deambular um pouco, parou para ler o texto sobre os koalas que, entre outras coisas, explicava que o facto de se alimentarem apenas de folhas de eucaliptos os deixava num estado de alguma fraqueza, pelo que passavam cerca de dezoito a vinte horas por dia a dormir... Eram seis da tarde e lembrou-se que, durante todo o dia, só tinha comido um iogurte líquido e uma salada. De repente, aquilo de os koalas não comerem o suficiente para estarem mais tempo acordados comoveu-a ao ponto de começar a chorar.

Entretanto, ele tinha caminhado ao acaso até ao sítio dos koalas enquanto esperava por uma tratadora de girafas, para resolver a questão do seguro do carro, devido a um confuso acidente num cruzamento perto dali, dois dias antes.


6

Há muitos anos que trago comigo um lenço branco, sempre lavado e perfumado, que nunca uso. Não me perguntem porquê. Se alguma vez existira uma razão já a tinha esquecido. Mas quando vi a mulher que chorava não hesitei, estendi-lhe o lenço branco, sem dizer uma palavra, e sorri, como se tivesse descoberto a solução de um problema difícil. Ela aceitou o lenço, limpou as lágrimas, afogando-as com muito cuidado na brancura do pano, e disse com olhos ainda tristes:

- Os koalas.

Só então percebi que estávamos em frente aos koalas. Ela continuava a olhar-me sem dizer nada. Já não chorava mas mantinha o lenço, que agarrava agora com as duas mãos.

- Os koalas - repeti, e ela não se fez rogada.

- Os koalas alimentam-se apenas de folhas de eucaliptos, o que os deixa num tal estado de fraqueza, que passam cerca de dezoito a vinte horas por dia a dormir.

Foi a minha vez de ficar em silêncio, sem saber o que dizer.

- Os koalas - disse ela de novo, com um sorriso preguiçoso a crescer-lhe no rosto.

- Os koalas - disse ainda mais uma vez, sorrindo abertamente.

Sorri também, aceitei o lenço que ela me estendia, e senti-me feliz pela primeira vez nesse dia, ou talvez até possa dizer pela primeira nessa semana senti-me feliz, aquela felicidade que não levanta suspeitas nem pede explicações.

- Os koalas - disse, e rimos os dois um mesmo riso álacre e contagiante.


7

Aquela sensação libertadora e, ao mesmo tempo, aconchegante trouxe-lhe à memória alguns momentos da infância. Lembrava-se nitidamente de pequenas coisas que lhe davam vontade de chorar quando era criança, como os desenhos animados da Heidi ou os bichinhos de seda convertidos em casulos opacos. Lembrava-se também do alívio que sentia quando algo ou alguém, inesperadamente, conseguia transformar as lágrimas em riso, como a voz alegre da mãe que a chamava para lanchar. Lembrava-se perfeitamente desses lanches, do sabor do pão fresco com manteiga dissolvendo-se na boca com sumo de ananás. Lembrava-se do conforto desse ritual repetido todas as tardes, na cozinha onde se cruzavam o cheiro a madeira encerada, que envolvia toda a casa, e o aroma intenso a terra húmida, que entrava pela janela aberta sobre o jardim.

Embalada por um conforto antigo, convidou-o para lanchar.


8

— E se fôssemos para o parque das merendas, perto da aldeia dos macacos? Compramos qualquer coisa e levamos!

Quase gritei, como em criança. E quase corri. E quase a agarrei pela mão e a puxei em direcção ao parque, Não tivesse ela feito exactamente isso. Agarrou a minha mão e puxou-me, ao mesmo tempo que dizia: Vamos. Vamos.

Recordei-me de um piquenique no mesmo zoo, devia ter uns três anos, em que um macaco dos mais pequenos se esgueirara pelas grades e me tirara da mãos um bocado de pão, sem que eu fizesse um gesto ou desse sequer um ai, e o levara sem demoras para a sua jaula. Acho que então chorei, de susto e de raiva, mas essa é ainda hoje uma das minhas recordações mais antigas e gratas.

Vamos, vamos — insistiu ela. E eu deixei-me levar.


9

Atravessámos o jardim com o passo rápido de quem tem um plano e um entusiasmo. Ao longo do caminho para o mini-mercado, fomos fazendo em voz alta a lista do que nos apetecia comer: pão com queijo fresco, maçãs, bolo de chocolate, sumo de laranja, amendoins para partilhar com os macacos... Não conseguíamos parar de sorrir, mas também não tentámos. Durante todo o percurso, mantive sempre a minha mão bem agarrada à dele, para não deixar fugir a felicidade entre os dedos.


10
E ainda hoje, tanto tempo passado, basta apenas dizer, Os koalas, para nos enchermos de pura felicidade.

10.5.06

Desencontro


1
Encontraram-se finalmente, já os seus desencontros iam longos, e se quisermos contar toda a história, teremos talvez de começar pelo princípio, pela primeira vez que quase se encontraram, num colóquio de escritores para que ambos tinham sido convidados a integrar uma mesma mesa, mas tiveram de desistir à última da hora por força de circunstâncias inesperadas. Era assim que se recordavam, pois foram os únicos que faltaram, como lhes contou o organizador, ao telefone, em resposta ao pedido de desculpas que, cada um a seu tempo lhe apresentou. Fomos os únicos que faltamos? Eu e… ainda bem! Disseram os dois, cada um de sua vez.E assim começou a história dos seus desencontros, ou a história do seu encontro, se preferirem.
2
Conheciam-se apenas de se lerem e, assim, não surpreende que se tenham cruzado algumas vezes sem se terem encontrado. Um dia, estiveram sentados na mesma esplanada, apenas com uma mesa de intervalo. Noutra ocasião, aplaudiram em simultâneo um filósofo célebre, no final de uma conferência na Fundação Gulbenkian. Houve ainda uma vez em que pararam, lado a lado, em frente à mesma banca na Feira do Livro, olhando para o mesmo romance que ambos decidiram comprar. Até que, numa terça-feira de Outono, acabaram finalmente por se encontrar.
3
Talvez eu pudesse dizer, sem receio de parecer enigmático ou pretensioso, que o nosso encontro começou quando tomámos consciência dos nossos desencontros. Quando pela segunda vez reparei que tínhamos sido os únicos a desistir à última hora, fiquei com a estranha sensação de que algo se preparava entre nós, pois era notória a existência de um qualquer misterioso laço que se manifestava pela impossibilidade do nosso encontro. Daí em diante passei a procurar sempre o seu nome na lista dos participantes, mas muito tempo passou até que aconteceu: ela ia estar presente num encontro a que eu pretendia ir também.
4
Foi a única vez que estiveram juntos, mas esse encontro ficou para sempre na memória de ambos.
5
Na verdade, só muito tempo depois soubemos que nos tinhamos finalmente encontrado. Era Outono, a cidade era Huelva, um encontro de editores independentes, o dia uma terça-feira, um fim de dia triste, cinzento e chuvoso. À saida da aeroporto partilhámos um táxi. Para onde vai? Para o hotel Iberia. Eu também. E se fossemos jantar depois? Porque näo? Jantámos, conversamos, dormimos juntos e nem por uma vez dissemos os nossos nomes. Só no outro dia, já tinhas ido embora, soube que finalmente nos tínhamos encontrado.

23.4.06

O anel



1


Enquanto subia a imponente escadaria da National Gallery, pensava no dia em que se tinham conhecido, num congresso de História da Arte, em Lisboa. Faziam parte do mesmo painel e, depois da sessão, ficaram a conversar sobre os temas que os tinham levado até ali. Viviam em duas cidades diferentes, em dois países diferentes, mas ambos passavam muito tempo em viagem. Como é habitual nestas situações, trocaram contactos.

Menos habitual, mas igualmente verosímil, foi o facto de esses contactos terem sido usados, nas semanas e meses que se seguiram ao congresso. Na verdade, passaram a comunicar quase diariamente por e-mail. Numa dessas mensagens, descobriram que iriam estar em Londres na mesma semana e ficaram de combinar por telefone um encontro, algures.

Dois dias depois de ter chegado à cidade, ele ligou-lhe e ela, que tinha pensado em mil hipóteses de lugares para se encontrarem, ficou bloqueada pela pressa do momento. Acabou por responder a primeira coisa que lhe ocorreu e que, agora que subia a escadaria, lhe parecia uma opção um pouco estúpida. Tinha sugerido esperar por ele em frente ao seu quadro preferido: o Retrato dos Arnolfini.

2


Na fotografia estão os dois de pé, ele ergue o braço direito num gesto equívoco e com a mão esquerda segura a dela, que repousa na dele, mas a semelhança com o Retrato dos Arnolfini de Jan Van Eyck termina aí. Ambos sorriem e o ambiente que os rodeia é isento de mistérios. Quem olhe a fotografia pode pensar que são um casal ou apenas dois amigos. Há uma leveza nas suas expressões que indica que estão apaixonados, mas essa talvez não seja uma conclusão segura. Olham os dois para a objectiva, e não um para o outro e, por estranho que pareça, essa circunstância aproxima-os mais do que os afasta, pois é como se partilhassem o mesmo olhar.

3


A fotografia foi tirada alguns meses depois daquele encontro na National Gallery.

Eu cheguei antes dele e fiquei mais de meia hora em frente ao Retrato dos Arnolfini, à espera que o tempo passasse e que ele aparecesse. Enquanto esperava, lembrei-me de muitas coisas que tinha lido sobre o quadro. Entre detalhes acerca dos personagens, do cenário e da paleta de cores, havia um dado que me parecia particularmente curioso e que era o facto de, supostamente, a cena representada corresponder a um noivado e não a um casamento, como muitos supõem.

Pensava nisto quando me lembrei do meu anel de noivado. Não fazia sentido ostentar aquele anel demasiado valioso numa cidade onde ninguém me conhecia e, sobretudo, num encontro em que o mesmo podia suscitar perguntas para as quais eu não tinha respostas convincentes. Na realidade, eu tinha cada vez mais dúvidas quanto ao anunciado casamento. Voltei a olhar fixamente para o quadro e decidi tirar o anel do dedo. Com um gesto contínuo, passei-o para a palma da mão, enquanto decidia qual o melhor sítio para o guardar. Nisto, pareceu-me reconhece-lo, ao fundo da galeria. Sim, era ele. Apressei-me, então, a guardar o anel na mala mas, sem que pudesse perceber como, ele deslizou-me da mão e caiu no pavimento, precisamente por entre as grelhas metálicas do ar condicionado.

4


Olho a fotografia em que os dois mimamos o Retrato dos Arnolfini e penso como esse quadro – o preferido dela – se tornou uma espécie de ex-libris do nosso relacionamento, ambíguo, misterioso. Lembro-me do nosso encontro na National Gallery, em frente a esse quadro – local escolhido por ela – e como tudo se complicou desde então. O nosso relacionamento nada tem de simples, mas não é por isso que me agrada menos, ainda que curiosamente, me agrade sobretudo pela possibilidade que encerra de se tornar simples. Ao contrário dela, não gosto de coisas complicadas, e o nosso gosto artístico reflecte essa diferença. Lembro-me da paixão com que falou do seu quadro preferido e, ainda que não concordasse de um todo com os motivos, foi-me impossível não me entusiasmar também. Um casamento, um noivado, uma traição… interrogava-se ela, fazendo desse tema o centro de discussão do quadro enquanto eu, prosaicamente, me espantava com o pequeno cão ridículo que não aparecia reflectido no espelho.

5


Entretanto, ele aproximava-se e eu não sabia o que fazer em relação ao anel. Seria fácil recuperá-lo? A quem poderia pedir para abrir a grelha do ar condicionado? Daria para abrir ou seria preciso desmontar a peça inteira? Tentei ser optimista: talvez o anel estivesse a pouca profundidade e eu própria conseguisse retirá-lo com uma pinça... Ainda pensei em baixar-me o suficiente para espreitar entre os perfis metálicos, mas desisti no mesmo instante porque, se o fizesse, ele, agora a poucos metros de mim, iria certamente reparar no movimento insólito e perguntar-me o que procurava. Tentei, por isso, fazer um ar natural e adiar o problema do anel para mais tarde.

6


Cheguei sem grandes dificuldades ao piso 2 da ala Sainsbury, onde se encontram os quadros de 1250 a 1500, e segui por ali adiante até a encontrar, de costas para o Retrato dos Arnolfini, parecendo incomodada. Confirmei a hora a que tínhamos combinado, não fosse eu ter-me baralhado e estar atrasado, mas ela logo me sossegou, tomando-me a mão direita nas suas, num gesto que muito apreciei. Perguntei-lhe se queria comer qualquer coisa no restaurante, no piso 1, e ela aceitou, acrescentando que adorava as empadas e as tartes, todas elas servidas com uma pequena salada.

7


Olhei discretamente para o relógio: duas e um quarto. O museu fechava às seis, o que significava que eu tinha quase quatro horas para tentar reaver o anel. Pareceu-me que era tempo suficiente para me permitir descontrair um pouco, desfrutando da companhia dele, sem pensar no anel de noivado perdido, algures, no sistema de ar condicionado de um dos maiores museus do mundo.

8


Ainda deitei os olhos ao quadro antes de sairmos e não é difícil de adivinhar que o meu olhar caiu no enigmático cão que não aparecia reflectido no espelho. O cão costumava simbolizar a fidelidade e talvez essa fosse uma pista importante para a leitura do quadro. De repente lembrei-me que ela tinha um cão, grande e negro, nada parecido com o do quadro, a quem passei a referir-me como Arnolfini, perante o olhar divertido mas mesmo assim algo ameaçador dela.

9


Passámos o resto da tarde na National Gallery, entre o restaurante da ala Sainsbury e as salas de exposição, deambulando de quadro em quadro, conversando sobre tudo e sobre nada. Apesar de ter conseguido abstrair-me momentaneamente do anel, uma imagem perseguiu-me o tempo todo: o olhar frio do noivo Arnolfini e a sua mão esguia, erguida do num gesto de possível reprovação...

10


Antes de sairmos resolvi ir dar uma última olhada ao Retrato dos Arnolfini e, como ela declinou o convite, fui sozinho. Parei em frente ao quadro, a alguma distância dele, sobre a grelha de ventilação, e quando olhei para baixo, à cautela, vi algo brilhar. Baixei-me, espreitei de lado através do gradeado, e vi um anel, que retirei com alguma facilidade, usando um lápis. Não estava mais ninguém ali, guardei o anel no bolso, olhei o noivo Arnolfini que me parecia olhar com reprovação, e voltei para ao pé dela, que me recebeu com um sorriso que logo desapareceu mal lhe mostrei o anel, em silêncio.

11


Aproximou-se de mim com a mão direita fechada, como se guardasse alguma coisa. Eu sorria, levantando-me do banco onde tinha ficado à espera que ele voltasse da visita ao Retrato dos Arnolfini. Depois de um breve instante de silêncio, aconteceu a revelação. Encontrei isto perto do quadro, disse, e estendeu a mão direita, agora ligeiramente aberta, amparando o meu anel. Senti a respiração intermitente e o pulsar do coração oscilando, para cima e para baixo, na garganta. Milhares de palavras sem nexo passavam diante de mim, como imagens em movimento. Não conseguia agarrá-las e muito menos agrupá-las numa frase qualquer que fizesse o mínimo sentido.

Indiferente à minha inquietação, ele segurou a jóia com a ponta dos dedos e acrescentou: é um belíssimo anel, não achas? Esbocei um gesto de confirmação, com um sorriso pouco expressivo. E antes que pudesse encontrar uma única palavra, ele disse: tenho a certeza que te fica bem, deixa ver... Dizendo isto, segurou a minha mão esquerda e fez deslizar suavemente o anel ao longo do dedo. Depois sorriu, aparentemente deslumbrado com a perfeição do ajustamento. É como se tivesse sido feito à tua medida, afirmou, agora com as duas mãos em volta da minha, ainda trémula. Acho que devias ficar com ele.

Fechei ligeiramente os olhos em sinal de acordo e voltei a sorrir, mas desta vez mais tranquila.

12


Na fotografia em que os dois aparecem a mimar o retrato dos Arnolfini, tirada por um sorridente turista japonês, poderemos, se deixarmos o olhar vaguear, encontrar
subitamente
na mão esquerda da mulher
estranhamente pousada sobre o coração, um anel que contrasta, no elevado valor que se lhe adivinha, com a simplicidade das roupas dela e da própria ocasião. E nesse anel adivinha-se uma história por contar. É ele o centro da fotografia, e todos os outros elementos se organizam à sua volta.

15.4.06

TODOS OS DIAS



1

Encontrámo-nos num congresso. Fazíamos parte do mesmo painel e falámos um a seguir ao outro. Primeiro ela. Depois eu. Um e outro gostávamos de ser estrelas, e brilhámos, o mais possível. Eu segui atentamente o que ela disse. Fiquei fascinado. E acho que o mesmo se passou com ela quando eu fiz a minha apresentação. Não sabíamos nada um do outro e ficámos bastante interessados em saber mais. Sentimo-nos atraídos, sentimos que tínhamos algo em comum. Mas a verdade é que os contrários também se atraem.
2

Escreveu rapidamente, sem uma hesitação e enviou a mensagem de seguida.

Na mesma cidade, à mesma hora, ela também escrevia a alguém.
3

Conheci-o num congresso. Fazíamos parte do mesmo painel. Falámos um a seguir ao outro, primeiro eu, depois ele. No escuro do auditório, enquanto passava os meus slides, percebi que ele seguia atentamente o que eu dizia. Sentia-o respirar ao meu lado, na mesa. Depois assisti à apresentação dele e reparei na forma discreta como, entre algumas frases, desviava o olhar da plateia para confirmar que eu sorria, atenta e fascinada. Não sabíamos nada um do outro. Naquele momento, sabíamos apenas alguma coisa sobre temas que nos interessavam ou ocupavam. Mas ficámos com vontade de saber mais. Sentimos que tínhamos algo em comum, como se confirmou, de resto, mais tarde. Durante este tempo todo, descobrimos também que as diferenças nos unem tanto como isso que, desde o princípio, sentimos que tínhamos em comum.

4

O que atrai as pessoas, o que as impele umas para as outras? A resposta é sempre difícil, recorramos a explicações biológicas ou de carácter social. E então quando se trata de homens e mulheres ainda é mais difícil. Confesso que me sinto atraído pela inteligência, ou melhor ainda, pela paixão do conhecimento, pela paixão que alguns conseguem colocar nas suas acções. Gosto de pessoas apaixonadas, de pessoas lucidamente apaixonadas. E de pessoas livres. Isto aplica-se às mulheres. Gosto de mulheres inteligentes e apaixonadas pela vida. Este deve ser um dos motivos que não tenho sorte nenhuma ao amor. Sim, porque além do mais, acredito no amor. E procuro-o. E desespero.

5

Queria explicar à amiga como aquilo acontecera mas não conseguia. Por isso, resolveu terminar a mensagem assim, entre diferenças e afinidades.

Enviou o mail e ficou parada, em frente ao monitor, a olhar para uma imagem de fundo com uma praia onde nunca estivera. Ficou a pensar na situação, em como tudo começara e como tinham chegado até ali. Era a primeira vez que tentava encontrar uma explicação.

O que atrai as pessoas, o que as impele umas para as outras? A resposta é sempre difícil, pensei, enquanto procurava explicar a mim mesma como tínhamos chegado até ali. Gosto de pessoas livres, atentas, apaixonadas. Acho que foi isso que nos uniu, desde o princípio: sentir que estávamos ambos livres para dar atenção um ao outro e partilhar paixões. Gosto de pessoas que vivem permanentemente apaixonadas por pequenas coisas. Gosto de pessoas que se emocionam com apontamentos, fragmentos, detalhes. "Deus está nos detalhes" dizia Mies e tinha razão. Ainda tem.

6

Na noite do dia em que se conheceram ele telefonou-lhe.
Quando desligou não sabia muito bem o que tinha dito. Mas estava contente. Não sabia muito bem porquê.

7

No mesmo dia em que o conheci, pensei em ligar-lhe. Quando cheguei a casa tirei o cartão da mala e segurei-o hesitante entre os dedos. Depois pousei-o em cima da mesa e peguei-lhe outra vez. Reli o nome e os contactos que já sabia de cor. Era um cartão simples, com letras cinza-chumbo impressas sobre um fundo cinza-claro. Um único tipo de letra, dois tamanhos. Simples, sóbrio, impecável.

8

Não conseguia explicar porquê, mas sentia uma vontade quase incontrolável de lhe ligar e, ao mesmo tempo, concretizar essa vontade parecia não fazer qualquer sentido.

9

E agora, leitor, o que vai acontecer? Talvez este relato devesse terminar aqui. Lançados os dados, o que acontecer acontecerá, por assim dizer. Encontraram-se, sentiram-se atraídos e… afastaram-se. Porque não? E voltaram-se a encontrar? Talvez. Cada encontro é o princípio de um desencontro. E para que haja uma história é preciso apenas um homem e uma mulher. E que se encontrem. E que se desencontrem. Ou até que nunca se encontrem. Seria possível escrever a história de um desencontro? De como duas pessoas nunca se encontraram? Claro que sim, os desencontros são muito mais constantes que os encontros. Mas voltando à nossa história. Eles encontraram-se, trocaram olhares, números de telefone e endereços de correio electrónico. E ele telefonou-lhe…

10

Depois de desligar sentiu-se completamente tonta. Mas, sem perceber bem porquê, sentia-se ao mesmo tempo muito contente. Tinha perguntado pelo menos cinco vezes se estava tudo bem. E ele, não menos tonto que ela, tinha respondido pelo menos cinco vezes que sim e devolvido a mesma pergunta. Contudo, no meio dessa repetição patética, ele tinha conseguido introduzir uma outra pergunta: "queres tomar um café amanhã?" Ela, dominada pelas frases anteriores, não conseguiu encontrar uma resposta diferente de "tudo bem". E ficaram assim, completamente tontos e, por isso mesmo, muito contentes, à espera do dia seguinte.

11

No dia seguinte não nos encontrámos. Nunca cheguei a telefonar-lhe. E não foi porque me esquecesse de o fazer ou o telemóvel caísse na sanita destruindo a memória do seu número de telefone. Foi talvez porque me assustei, como disse o João, ou porque não tive paciência, como lhe respondi, para começar tudo de novo. A verdade é que eu levo as coisas muito a sério, demasiado a sério, lembrou-me ele, e depois concluiu o assunto dizendo que, afinal de contas, ela também não me tinha telefonado. Não percebi se, na sua opinião, isso lhe dava a vitória, ou tínhamos ficado empatados.

12

Na manhã a seguir ao dia em que não nos encontrámos, saí de casa demasiado tarde para chegar a tempo à reunião. Para reduzir o atraso ao mínimo, resolvi apanhar o primeiro taxi que passou livre por mim. Indiquei o destino com uma ansiedade mal disfarçada e o taxi avançou, de imediato, em direcção ao semáforo vermelho. Acelerar para travar apenas uns metros à frente parecia-me absurdo. Porque é que ele não me tinha ligado? Faltavam cinco minutos para a reunião começar e eu não ia chegar a tempo. Porque é que eu não lhe tinha ligado? O semáforo ficou verde e o taxi avançou novamente, em direcção ao próximo cruzamento. Faltavam três minutos e eu ainda estava longe. Procurei um gloss na mala. Não conseguia encontrar um bom motivo para ele não me ter ligado, nem um bom motivo para eu não lhe ter ligado. Finalmente, encontrei o gloss. Mais um cruzamento. Desta vez o sinal estava aberto mas o taxista abrandou, com uma hesitação de percurso: O melhor caminho é sempre em frente, não acha? Disse-lhe que sim e, de repente, aquela frase pareceu-me uma metáfora. Estava na hora da reunião e eu ainda não estava perto. Mas estava a caminho. E o melhor caminho era sempre em frente. Decidi ligar-lhe nessa noite.

13

E no dia seguinte ela ligou-me. Acho que a primeira coisa que pensei foi o que diria agora o João, embora isso pouco me importasse na altura. Ao contrário de quando lhe telefonei, lembro-me praticamente de tudo o que foi dito, quase palavra a palavra, mas também não é menos verdade que pouco falei.

14

Embora ela estivesse absolutamente determinada a ligar-lhe, precisou de comer um pacote de pastilhas de hortelã-pimenta e de beber três copos de água mineral, antes de pegar no telefone.

15

Às vezes parece que damos saltos no tempo, para a frente ou para trás, ou talvez tudo aconteça ao mesmo tempo. Pelo menos aquilo que já aconteceu. E o que vai acontecer. Acontece ao mesmo tempo. Pode acontecer a qualquer altura. Às vezes acredito que a escrita é como o tempo, é a imagem mais perfeita que podemos ter do tempo. E a memória. E a imaginação. Mas tudo isto porque pensava no dia em que nos voltámos a encontrar. E nos dias que se seguiram. Já tudo aconteceu. Mas a escrita faz acontecer tudo de novo.

De tudo o que aconteceu, se tudo tivesse desaparecido, teria ficado um poema, ou esboço de poema, se é que algum poema está acabado, há muito esquecido entre duas folhas de um romance, ainda que a sabedoria que ele me revelou se mostre ainda viva em mim.

Contigo aprendi o amor
Porque eu já amara antes
É verdade
Muitas e muitas vezes
Amara
Metodicamente
Às cegas
Repetindo todas as palavras
Que é habitual dizer-se
Repetindo todos os gestos
Que é habitual fazer-se
E não conhecia o amor
Amava apenas
Com quem percorre um caminho
Pela primeira vez
E não sabe onde o poderá levar
E agora
Agora eu sei o amor
Mas nem por isso
Deixei de amar
como antes amava
Amo como quem não sabe
Amo, amo apenas.

Ela nunca o leu. E estou quase certo que não gostaria dele.

16

Fui ter com ele ao sítio combinado. À hora certa já estava perto.
Era um café de vidro, com um desenho despojado e moderno. Não se parecia nada com um coreto, nem com uma estufa. Para mim, parecia-se mais com uma carruagem transparente que, por qualquer motivo, descarrilara ali, no meio do parque. Talvez, em tempos, tivesse sido uma carruagem normal, de um vulgar comboio mas, depois, perdida a linha e condenada ao abandono, tinha-se esvaziado progressivamente até ficar transparente...Pensei nisto enquanto me aproximava do volume de vidro. Enquanto tentava perceber se ele já tinha chegado. Enquanto tentava distrair uma ansiedade sem motivo.

17

Cheguei primeiro do que ela, não porque ela tivesse chegado atrasada, mas porque eu cheguei mais cedo. Meia hora mais cedo para ser exacto. Ela chegou à hora marcada.

18

Ali estava ele, sentado, aparentemente tranquilo. Por momentos ela receara que ele não viesse. Mas ele estava ali, sentado, aparentemente tranquilo. Ainda bem que vieste, disse ela. E, dizendo isto, puxou a cadeira mais próxima e sentou-se.

19

Ficaram os dois em silêncio, olhando-se, sorrindo, aparentemente tranquilos. Bonito, disse ele, quebrando o silêncio, e tomou-lhe a mão direita para olhar melhor o anel que se destacava na sua mão esguia. E ficaram assim, olhando-se, sorrindo. Sentiam-se bem, mas a alegria que sentiam, pesava-lhes, tornava-lhes lento o raciocínio, atrapalhava-lhes os movimentos, incomodava-os de um forma subtil mas poderosa. Várias vezes tentaram sacudir esse torpor mas não conseguiam, e foram-se calando, olhando-se, sorrindo. Da mesma forma que poderiam ter falado sem parar, assim se calaram, e os gestos tornaram-se pesados e raros. A certa altura ele tentou agarrar o copo, mas a sua mão não lhe obedeceu, e embateu no copo, derrubando-o, espalhando o sumo de laranja espesso pela mesa, que correu como um rio revolto. O vestido claro ostentava uma enorme mancha, no entanto ela sorria ainda, enquanto ele se desfazia em desculpas. Acho que vou a casa mudar de vestido, e quanto mais rápido melhor, disse ela.

20

Ainda bem que isto aconteceu, pensei. Precisava de sair do café o mais depressa possível, antes que a camada de laranja líquida secasse sobre o vestido. Precisava de aproveitar o instante em que as palavras tinham surgido para dizer que me ia embora, antes que elas ficassem de novo suspensas. Precisava de me afastar, antes que o meu desejo se tornasse mais transparente que o próprio edifício, no meio do parque. Tinha sido insensato ligar-lhe e, contudo, não me arrependia. Pelo menos, por enquanto.

21

Deixa-me oferecer-te um vestido novo, disse eu, e arrependi-me de o ter dito ainda nem o tinha acabado de dizer. Mas já o tinha dito e, como muitas vezes me acontece, tentei emendar o erro insistindo nele. Havia um centro comercial ali mesmo ao lado, até seria divertido, e assim não precisávamos de nos separar já, era a melhor solução, seria como um presente de aniversário, tudo isto eu disse e voltei a dizer sem saber já muito bem o que dizia. E insisti, Vai ser divertido, vai ser divertido. Às vezes posso ser muito convincente e quando ela deu por isso já eu a levava na direcção do centro.

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Ele insistiu tanto na ideia de irmos comprar outro vestido que eu me deixei levar até à porta do centro comercial. Contudo, à entrada, senti que não podia prosseguir. E fiquei parada, à espera que me ocorresse uma frase, debaixo do sensor das portas automáticas que deslizavam para cá e para lá, abrindo-se e fechando-se ao mesmo ritmo. Ao meu lado, ele continuava a repetir que era a melhor ideia, que sim, que ia ser divertido comprar outro vestido. E eu parada, em frente às portas de vidro espelhado, a ver a enorme mancha de sumo no meu vestido claro, de cada vez que elas se aproximavam, para logo deixar de ver, quando elas se voltavam a afastar, deslizando para cá e para lá ao mesmo ritmo.

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"É melhor eu ir para casa", disse ela de repente, num tom que não admitia contestações.
E eu olhei-a, sem nada dizer.
Não me arrependia de ter insistido com ela para comprar o vestido, nem mesmo de mostrar que me apetecia estar com ela, pois era afinal disso que se tratava, mas as mulheres são sempre muito complicadas, mesmo as louras, e por um momento o que me apeteceu foi dizer-lhe adeus e ir-me embora.
Mas fiquei calado.

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Está bem, disse ela, convenceste-me. Nesse mesmo instante, as portas deslizaram outra vez para os lados e eles entraram no centro comercial, para comprar um vestido.

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Primeiro, parecia que queria ir para casa e deixar-me ali, e estava determinada, logo depois aceitou ficar, como se fosse natural. Eu sempre digo que as mulheres são complicadas, mas a verdade é que também acho os homens complicados, a começar por mim, pelo menos no que diz respeito às relações entre os homens e as mulheres. Mas o que complica qualquer relação é a insegurança, o facto de muitos de nós não sabermos o que queremos, ou queremos várias coisas em simultâneo que não são compatíveis. Acredito que complicamos as coisas. Acredito também que nem sempre é fácil manter as coisas simples. Mas foi o que acabou por acontecer. Entrámos numa loja e eu sentei-me, em frente aos vestiários, enquanto ela provava vestidos um atrás do outro numa espécie de jogo, e por momentos fomos apenas duas crianças que brincavam com um sorriso nos lábios. Não podia ser mais simples.

26

Acabei por sair do shopping com um vestido que nunca imaginaria usar. De resto, nunca tinha tido um vestido com flores porque sempre me parecera um pouco Kitsch usar roupa às flores. No entanto, naquela tarde, depois de experimentar dezenas de vestidos, tinha escolhido o mais improvável e, estranhamente, parecia-me perfeito. Às vezes, a vida consegue impor-nos uma simplicidade que, se estivesse directamente nas nossas mãos, acabaríamos por recusar.

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A partir daquela tarde, passámos a encontrar-nos todos os dias.

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FIM?

29.3.06

[regras do jogo]

Uma personagem do sexo masculino, outra do sexo feminino, um narrador sem sexo. E dois autores, um do sexo masculino e outro do sexo feminino. Os textos, na primeira pessoa, das duas personagens alternam-se, surgindo os do narrador sem qualquer ordem. No início personagens e autores têm o mesmo sexo, mas qualquer um deles pode tomar o lugar do outro, desde que este fique mais de quarenta e oito horas sem responder. O tamanho dos textos será aquele que o seu autor quiser, sem quaisquer limitações. Assim como a direcção da narrativa, que tomará aquela que os respectivos autores quiserem, podendo ignorar-se ou confrontar-se. E terminará quando terminar. E recomeçará, talvez, quantas vezes quiserem.