10.5.06

Desencontro


1
Encontraram-se finalmente, já os seus desencontros iam longos, e se quisermos contar toda a história, teremos talvez de começar pelo princípio, pela primeira vez que quase se encontraram, num colóquio de escritores para que ambos tinham sido convidados a integrar uma mesma mesa, mas tiveram de desistir à última da hora por força de circunstâncias inesperadas. Era assim que se recordavam, pois foram os únicos que faltaram, como lhes contou o organizador, ao telefone, em resposta ao pedido de desculpas que, cada um a seu tempo lhe apresentou. Fomos os únicos que faltamos? Eu e… ainda bem! Disseram os dois, cada um de sua vez.E assim começou a história dos seus desencontros, ou a história do seu encontro, se preferirem.
2
Conheciam-se apenas de se lerem e, assim, não surpreende que se tenham cruzado algumas vezes sem se terem encontrado. Um dia, estiveram sentados na mesma esplanada, apenas com uma mesa de intervalo. Noutra ocasião, aplaudiram em simultâneo um filósofo célebre, no final de uma conferência na Fundação Gulbenkian. Houve ainda uma vez em que pararam, lado a lado, em frente à mesma banca na Feira do Livro, olhando para o mesmo romance que ambos decidiram comprar. Até que, numa terça-feira de Outono, acabaram finalmente por se encontrar.
3
Talvez eu pudesse dizer, sem receio de parecer enigmático ou pretensioso, que o nosso encontro começou quando tomámos consciência dos nossos desencontros. Quando pela segunda vez reparei que tínhamos sido os únicos a desistir à última hora, fiquei com a estranha sensação de que algo se preparava entre nós, pois era notória a existência de um qualquer misterioso laço que se manifestava pela impossibilidade do nosso encontro. Daí em diante passei a procurar sempre o seu nome na lista dos participantes, mas muito tempo passou até que aconteceu: ela ia estar presente num encontro a que eu pretendia ir também.
4
Foi a única vez que estiveram juntos, mas esse encontro ficou para sempre na memória de ambos.
5
Na verdade, só muito tempo depois soubemos que nos tinhamos finalmente encontrado. Era Outono, a cidade era Huelva, um encontro de editores independentes, o dia uma terça-feira, um fim de dia triste, cinzento e chuvoso. À saida da aeroporto partilhámos um táxi. Para onde vai? Para o hotel Iberia. Eu também. E se fossemos jantar depois? Porque näo? Jantámos, conversamos, dormimos juntos e nem por uma vez dissemos os nossos nomes. Só no outro dia, já tinhas ido embora, soube que finalmente nos tínhamos encontrado.