O anel

1
Enquanto subia a imponente escadaria da National Gallery, pensava no dia em que se tinham conhecido, num congresso de História da Arte, em Lisboa. Faziam parte do mesmo painel e, depois da sessão, ficaram a conversar sobre os temas que os tinham levado até ali. Viviam em duas cidades diferentes, em dois países diferentes, mas ambos passavam muito tempo em viagem. Como é habitual nestas situações, trocaram contactos.
Menos habitual, mas igualmente verosímil, foi o facto de esses contactos terem sido usados, nas semanas e meses que se seguiram ao congresso. Na verdade, passaram a comunicar quase diariamente por e-mail. Numa dessas mensagens, descobriram que iriam estar em Londres na mesma semana e ficaram de combinar por telefone um encontro, algures.
Dois dias depois de ter chegado à cidade, ele ligou-lhe e ela, que tinha pensado em mil hipóteses de lugares para se encontrarem, ficou bloqueada pela pressa do momento. Acabou por responder a primeira coisa que lhe ocorreu e que, agora que subia a escadaria, lhe parecia uma opção um pouco estúpida. Tinha sugerido esperar por ele em frente ao seu quadro preferido: o Retrato dos Arnolfini.
2
Na fotografia estão os dois de pé, ele ergue o braço direito num gesto equívoco e com a mão esquerda segura a dela, que repousa na dele, mas a semelhança com o Retrato dos Arnolfini de Jan Van Eyck termina aí. Ambos sorriem e o ambiente que os rodeia é isento de mistérios. Quem olhe a fotografia pode pensar que são um casal ou apenas dois amigos. Há uma leveza nas suas expressões que indica que estão apaixonados, mas essa talvez não seja uma conclusão segura. Olham os dois para a objectiva, e não um para o outro e, por estranho que pareça, essa circunstância aproxima-os mais do que os afasta, pois é como se partilhassem o mesmo olhar.
3
A fotografia foi tirada alguns meses depois daquele encontro na National Gallery.
Eu cheguei antes dele e fiquei mais de meia hora em frente ao Retrato dos Arnolfini, à espera que o tempo passasse e que ele aparecesse. Enquanto esperava, lembrei-me de muitas coisas que tinha lido sobre o quadro. Entre detalhes acerca dos personagens, do cenário e da paleta de cores, havia um dado que me parecia particularmente curioso e que era o facto de, supostamente, a cena representada corresponder a um noivado e não a um casamento, como muitos supõem.
Pensava nisto quando me lembrei do meu anel de noivado. Não fazia sentido ostentar aquele anel demasiado valioso numa cidade onde ninguém me conhecia e, sobretudo, num encontro em que o mesmo podia suscitar perguntas para as quais eu não tinha respostas convincentes. Na realidade, eu tinha cada vez mais dúvidas quanto ao anunciado casamento. Voltei a olhar fixamente para o quadro e decidi tirar o anel do dedo. Com um gesto contínuo, passei-o para a palma da mão, enquanto decidia qual o melhor sítio para o guardar. Nisto, pareceu-me reconhece-lo, ao fundo da galeria. Sim, era ele. Apressei-me, então, a guardar o anel na mala mas, sem que pudesse perceber como, ele deslizou-me da mão e caiu no pavimento, precisamente por entre as grelhas metálicas do ar condicionado.
4
Olho a fotografia em que os dois mimamos o Retrato dos Arnolfini e penso como esse quadro – o preferido dela – se tornou uma espécie de ex-libris do nosso relacionamento, ambíguo, misterioso. Lembro-me do nosso encontro na National Gallery, em frente a esse quadro – local escolhido por ela – e como tudo se complicou desde então. O nosso relacionamento nada tem de simples, mas não é por isso que me agrada menos, ainda que curiosamente, me agrade sobretudo pela possibilidade que encerra de se tornar simples. Ao contrário dela, não gosto de coisas complicadas, e o nosso gosto artístico reflecte essa diferença. Lembro-me da paixão com que falou do seu quadro preferido e, ainda que não concordasse de um todo com os motivos, foi-me impossível não me entusiasmar também. Um casamento, um noivado, uma traição… interrogava-se ela, fazendo desse tema o centro de discussão do quadro enquanto eu, prosaicamente, me espantava com o pequeno cão ridículo que não aparecia reflectido no espelho.
5
Entretanto, ele aproximava-se e eu não sabia o que fazer em relação ao anel. Seria fácil recuperá-lo? A quem poderia pedir para abrir a grelha do ar condicionado? Daria para abrir ou seria preciso desmontar a peça inteira? Tentei ser optimista: talvez o anel estivesse a pouca profundidade e eu própria conseguisse retirá-lo com uma pinça... Ainda pensei em baixar-me o suficiente para espreitar entre os perfis metálicos, mas desisti no mesmo instante porque, se o fizesse, ele, agora a poucos metros de mim, iria certamente reparar no movimento insólito e perguntar-me o que procurava. Tentei, por isso, fazer um ar natural e adiar o problema do anel para mais tarde.
6
Cheguei sem grandes dificuldades ao piso 2 da ala Sainsbury, onde se encontram os quadros de 1250 a 1500, e segui por ali adiante até a encontrar, de costas para o Retrato dos Arnolfini, parecendo incomodada. Confirmei a hora a que tínhamos combinado, não fosse eu ter-me baralhado e estar atrasado, mas ela logo me sossegou, tomando-me a mão direita nas suas, num gesto que muito apreciei. Perguntei-lhe se queria comer qualquer coisa no restaurante, no piso 1, e ela aceitou, acrescentando que adorava as empadas e as tartes, todas elas servidas com uma pequena salada.
7
Olhei discretamente para o relógio: duas e um quarto. O museu fechava às seis, o que significava que eu tinha quase quatro horas para tentar reaver o anel. Pareceu-me que era tempo suficiente para me permitir descontrair um pouco, desfrutando da companhia dele, sem pensar no anel de noivado perdido, algures, no sistema de ar condicionado de um dos maiores museus do mundo.
8
Ainda deitei os olhos ao quadro antes de sairmos e não é difícil de adivinhar que o meu olhar caiu no enigmático cão que não aparecia reflectido no espelho. O cão costumava simbolizar a fidelidade e talvez essa fosse uma pista importante para a leitura do quadro. De repente lembrei-me que ela tinha um cão, grande e negro, nada parecido com o do quadro, a quem passei a referir-me como Arnolfini, perante o olhar divertido mas mesmo assim algo ameaçador dela.
9
Passámos o resto da tarde na National Gallery, entre o restaurante da ala Sainsbury e as salas de exposição, deambulando de quadro em quadro, conversando sobre tudo e sobre nada. Apesar de ter conseguido abstrair-me momentaneamente do anel, uma imagem perseguiu-me o tempo todo: o olhar frio do noivo Arnolfini e a sua mão esguia, erguida do num gesto de possível reprovação...
10
Antes de sairmos resolvi ir dar uma última olhada ao Retrato dos Arnolfini e, como ela declinou o convite, fui sozinho. Parei em frente ao quadro, a alguma distância dele, sobre a grelha de ventilação, e quando olhei para baixo, à cautela, vi algo brilhar. Baixei-me, espreitei de lado através do gradeado, e vi um anel, que retirei com alguma facilidade, usando um lápis. Não estava mais ninguém ali, guardei o anel no bolso, olhei o noivo Arnolfini que me parecia olhar com reprovação, e voltei para ao pé dela, que me recebeu com um sorriso que logo desapareceu mal lhe mostrei o anel, em silêncio.
11
Aproximou-se de mim com a mão direita fechada, como se guardasse alguma coisa. Eu sorria, levantando-me do banco onde tinha ficado à espera que ele voltasse da visita ao Retrato dos Arnolfini. Depois de um breve instante de silêncio, aconteceu a revelação. Encontrei isto perto do quadro, disse, e estendeu a mão direita, agora ligeiramente aberta, amparando o meu anel. Senti a respiração intermitente e o pulsar do coração oscilando, para cima e para baixo, na garganta. Milhares de palavras sem nexo passavam diante de mim, como imagens em movimento. Não conseguia agarrá-las e muito menos agrupá-las numa frase qualquer que fizesse o mínimo sentido.
Indiferente à minha inquietação, ele segurou a jóia com a ponta dos dedos e acrescentou: é um belíssimo anel, não achas? Esbocei um gesto de confirmação, com um sorriso pouco expressivo. E antes que pudesse encontrar uma única palavra, ele disse: tenho a certeza que te fica bem, deixa ver... Dizendo isto, segurou a minha mão esquerda e fez deslizar suavemente o anel ao longo do dedo. Depois sorriu, aparentemente deslumbrado com a perfeição do ajustamento. É como se tivesse sido feito à tua medida, afirmou, agora com as duas mãos em volta da minha, ainda trémula. Acho que devias ficar com ele.
Fechei ligeiramente os olhos em sinal de acordo e voltei a sorrir, mas desta vez mais tranquila.
12
Na fotografia em que os dois aparecem a mimar o retrato dos Arnolfini, tirada por um sorridente turista japonês, poderemos, se deixarmos o olhar vaguear, encontrar
subitamente
na mão esquerda da mulher
estranhamente pousada sobre o coração, um anel que contrasta, no elevado valor que se lhe adivinha, com a simplicidade das roupas dela e da própria ocasião. E nesse anel adivinha-se uma história por contar. É ele o centro da fotografia, e todos os outros elementos se organizam à sua volta.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home