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Volto na sessão seguinte, nem sei bem porquê. Talvez por curiosidade, talvez porque me sinta tão só que a presença de tantos corações solitários me divirta. Mas a certa altura sinto que não pertenço ali, que me estou a enganar e, pior que isso, a enganá-los. Chamo a orientadora à parte e digo-lhe que não devia estar ali, vim apenas em substituição de um amigo. Ela sorri, e pela primeira vez reparo nela. Tem uns belos olhos esverdeados e um nariz generoso. Os lábios são bem desenhados e abrem-se com facilidade num sorriso que parece virar-se para dentro, como se ela risse de si mesma. Talvez eu deva ir-me embora, continuo. Se é isso que quer, responde-me sorrindo ainda. Pergunto-lhe porque sorri tanto e ela diz-me que também ela está em substituição de uma amiga, e também ela lhe apetecia ir embora. Talvez os nossos amigos se devessem encontrar os dois, digo eu de repente, e ela olha-me muito séria, o sorriso apagado, e ri uma gargalhada álacre e quase estridente que me encanta. Mas o ar sério retorna, apenas os olhos brilham ainda, e pergunta-me o que quero fazer. Respondo-lhe sem hesitação.
E que tal jantarmos os dois?
E que tal jantarmos os dois?

