29.5.06

[3]

Quando chego à agência de encontros fazem-me entrar para uma sala onde se encontra uma dúzia de pessoas, homens e mulheres, e explicam-me as regras. A ideia é que falemos com todas as pessoas do outro sexo – há um igual número de homens e mulheres – e nos apresentemos brevemente. Podemos ainda fazer as perguntas que quisermos e respondermos às que nos fizerem. Depois de um período de tempo adequado será dado sinal para trocarem de par, continuam, até que todos se tenham conhecido. No final preencherão um boletim com as vossas preferências. Não se esqueçam de tomar notas, dizem como última recomendação, e entregam-nos um pequeno bloco e uma caneta. Olho em redor. A diferença de idades é notória. O mesmo quanto à evidente diferença social. Fico a pensar como terá sido formado este grupo que se afigura tão heterogéneo.

23.5.06

[1]

Conhecemo-nos através de uma agência de encontros. Mas o mais curioso é que nenhum de nós tinha solicitado esse serviço. Na verdade, aceitámos ambos ir em substituição de amigos, ainda que por motivos diferentes.

Os koalas

1

Cada vez que pensava na forma como se tinham conhecido, lembrava-se de uma frase que lera num romance de que guardava uma vaga memória. A imprecisão com que recordava a história estendia-se, de resto, à própria citação, que não poderia reconstituir com fidelidade mas apenas no seu sentido geral. A ideia da frase era, basicamente, que "a vida não é geométrica porque, se o fosse, duas linhas paralelas não chegariam a encontrar-se a não ser no infinito".


2

Gasto muito do meu tempo a pensar nas pequenas coisas da vida, a imaginar o que só imaginando se pode descobrir, como as relações entre as coisas e os mecanismos que as concretizam. É esta ocupação a que me entrego com frequência que faz com que as pessoas que me conhecem se dividam em classificar-me entre sonhador e melancólico. Na verdade, não sou uma coisa nem outra, sou apenas uma pessoa que gosta de se interrogar sobre o sentido da vida, não dos grandes mistérios, mas dos pequenos, pequeníssimos mistérios da vida, como os que ditam os encontros e os desencontros entre as pessoas. As misteriosos linhas que unem as pessoas, como naqueles passatempos em que unindo os pontos numerados surge uma imagem oculta, sempre me fascinaram. Não procuro nem acredito em explicações, gosto apenas de seguir o desenho desses encontros, que em tudo contrariam as regras da geometria. E na maior parte das vezes isso só se consegue usando a imaginação.


3

Conheci-o num colóquio sobre os desafios da imprensa na era da globalização. Ele tinha acabado de publicar um livro sobre a sua experiência enquanto repórter de um semanário de referência e eu, que naquela época ainda estudava comunicação social, fui pedir-lhe um autógrafo. A história poderia ter ficado por aí mas, como a geometria da vida é incerta, aconteceu que os nossos percursos se voltaram a cruzar, algum tempo depois, num contexto completamente diferente.


4

Falo todos os dias com imensas pessoas de que me esqueço no momento seguinte. E não é que não lhes dê atenção, estou tão habituado a não as voltar a ver que nada faço para me lembrar delas. São tantas as circunstâncias que nos afastam das pessoas, pelos menos de um conhecimento mais profundo, que nem vale a pena combatê-las. Com ela não foi diferente, estendeu-me o meu último livro, eu perguntei-lhe o nome, disse-me que estudava comunicação social, desejei-lhe sucesso profissional, sorrimos, ela pareceu ir dizer qualquer coisa, eu fiquei à espera, mas ela limitou-se a aceitar o livro que lhe estendi e a dizer obrigada antes de se ir embora. Fiquei a vê-la ir; bela, jovem, o andar firme e decidido mas não desprovido de charme. Quando a voltei a ver nem por um momento pensei que fosse a mesma mulher, mas continuava bela, jovem, o andar firme e decidido mas não desprovido de charme.


5

Foi um encontro improvável, ou se preferirem, anti-geométrico.

Ela estava em frente aos koalas, no jardim zoológico; tinha acabado de ler o texto impresso a branco sobre acrílico verde que relatava pormenores acerca da vida daqueles pequenos mamíferos. Tinha passado o dia inteiro com um colega da televisão, a recolher imagens para uma reportagem sobre o zoo de Lisboa que, mais uma vez, se deparava com falta de meios para sobreviver. Sentia-se exausta mas, ainda assim, disse ao colega que ele podia ir, mas ela ficava mais um bocado, a tentar organizar o texto. No entanto, sentia-se demasiado cansada e deprimida para trabalhar. Depois de deambular um pouco, parou para ler o texto sobre os koalas que, entre outras coisas, explicava que o facto de se alimentarem apenas de folhas de eucaliptos os deixava num estado de alguma fraqueza, pelo que passavam cerca de dezoito a vinte horas por dia a dormir... Eram seis da tarde e lembrou-se que, durante todo o dia, só tinha comido um iogurte líquido e uma salada. De repente, aquilo de os koalas não comerem o suficiente para estarem mais tempo acordados comoveu-a ao ponto de começar a chorar.

Entretanto, ele tinha caminhado ao acaso até ao sítio dos koalas enquanto esperava por uma tratadora de girafas, para resolver a questão do seguro do carro, devido a um confuso acidente num cruzamento perto dali, dois dias antes.


6

Há muitos anos que trago comigo um lenço branco, sempre lavado e perfumado, que nunca uso. Não me perguntem porquê. Se alguma vez existira uma razão já a tinha esquecido. Mas quando vi a mulher que chorava não hesitei, estendi-lhe o lenço branco, sem dizer uma palavra, e sorri, como se tivesse descoberto a solução de um problema difícil. Ela aceitou o lenço, limpou as lágrimas, afogando-as com muito cuidado na brancura do pano, e disse com olhos ainda tristes:

- Os koalas.

Só então percebi que estávamos em frente aos koalas. Ela continuava a olhar-me sem dizer nada. Já não chorava mas mantinha o lenço, que agarrava agora com as duas mãos.

- Os koalas - repeti, e ela não se fez rogada.

- Os koalas alimentam-se apenas de folhas de eucaliptos, o que os deixa num tal estado de fraqueza, que passam cerca de dezoito a vinte horas por dia a dormir.

Foi a minha vez de ficar em silêncio, sem saber o que dizer.

- Os koalas - disse ela de novo, com um sorriso preguiçoso a crescer-lhe no rosto.

- Os koalas - disse ainda mais uma vez, sorrindo abertamente.

Sorri também, aceitei o lenço que ela me estendia, e senti-me feliz pela primeira vez nesse dia, ou talvez até possa dizer pela primeira nessa semana senti-me feliz, aquela felicidade que não levanta suspeitas nem pede explicações.

- Os koalas - disse, e rimos os dois um mesmo riso álacre e contagiante.


7

Aquela sensação libertadora e, ao mesmo tempo, aconchegante trouxe-lhe à memória alguns momentos da infância. Lembrava-se nitidamente de pequenas coisas que lhe davam vontade de chorar quando era criança, como os desenhos animados da Heidi ou os bichinhos de seda convertidos em casulos opacos. Lembrava-se também do alívio que sentia quando algo ou alguém, inesperadamente, conseguia transformar as lágrimas em riso, como a voz alegre da mãe que a chamava para lanchar. Lembrava-se perfeitamente desses lanches, do sabor do pão fresco com manteiga dissolvendo-se na boca com sumo de ananás. Lembrava-se do conforto desse ritual repetido todas as tardes, na cozinha onde se cruzavam o cheiro a madeira encerada, que envolvia toda a casa, e o aroma intenso a terra húmida, que entrava pela janela aberta sobre o jardim.

Embalada por um conforto antigo, convidou-o para lanchar.


8

— E se fôssemos para o parque das merendas, perto da aldeia dos macacos? Compramos qualquer coisa e levamos!

Quase gritei, como em criança. E quase corri. E quase a agarrei pela mão e a puxei em direcção ao parque, Não tivesse ela feito exactamente isso. Agarrou a minha mão e puxou-me, ao mesmo tempo que dizia: Vamos. Vamos.

Recordei-me de um piquenique no mesmo zoo, devia ter uns três anos, em que um macaco dos mais pequenos se esgueirara pelas grades e me tirara da mãos um bocado de pão, sem que eu fizesse um gesto ou desse sequer um ai, e o levara sem demoras para a sua jaula. Acho que então chorei, de susto e de raiva, mas essa é ainda hoje uma das minhas recordações mais antigas e gratas.

Vamos, vamos — insistiu ela. E eu deixei-me levar.


9

Atravessámos o jardim com o passo rápido de quem tem um plano e um entusiasmo. Ao longo do caminho para o mini-mercado, fomos fazendo em voz alta a lista do que nos apetecia comer: pão com queijo fresco, maçãs, bolo de chocolate, sumo de laranja, amendoins para partilhar com os macacos... Não conseguíamos parar de sorrir, mas também não tentámos. Durante todo o percurso, mantive sempre a minha mão bem agarrada à dele, para não deixar fugir a felicidade entre os dedos.


10
E ainda hoje, tanto tempo passado, basta apenas dizer, Os koalas, para nos enchermos de pura felicidade.

10.5.06

Desencontro


1
Encontraram-se finalmente, já os seus desencontros iam longos, e se quisermos contar toda a história, teremos talvez de começar pelo princípio, pela primeira vez que quase se encontraram, num colóquio de escritores para que ambos tinham sido convidados a integrar uma mesma mesa, mas tiveram de desistir à última da hora por força de circunstâncias inesperadas. Era assim que se recordavam, pois foram os únicos que faltaram, como lhes contou o organizador, ao telefone, em resposta ao pedido de desculpas que, cada um a seu tempo lhe apresentou. Fomos os únicos que faltamos? Eu e… ainda bem! Disseram os dois, cada um de sua vez.E assim começou a história dos seus desencontros, ou a história do seu encontro, se preferirem.
2
Conheciam-se apenas de se lerem e, assim, não surpreende que se tenham cruzado algumas vezes sem se terem encontrado. Um dia, estiveram sentados na mesma esplanada, apenas com uma mesa de intervalo. Noutra ocasião, aplaudiram em simultâneo um filósofo célebre, no final de uma conferência na Fundação Gulbenkian. Houve ainda uma vez em que pararam, lado a lado, em frente à mesma banca na Feira do Livro, olhando para o mesmo romance que ambos decidiram comprar. Até que, numa terça-feira de Outono, acabaram finalmente por se encontrar.
3
Talvez eu pudesse dizer, sem receio de parecer enigmático ou pretensioso, que o nosso encontro começou quando tomámos consciência dos nossos desencontros. Quando pela segunda vez reparei que tínhamos sido os únicos a desistir à última hora, fiquei com a estranha sensação de que algo se preparava entre nós, pois era notória a existência de um qualquer misterioso laço que se manifestava pela impossibilidade do nosso encontro. Daí em diante passei a procurar sempre o seu nome na lista dos participantes, mas muito tempo passou até que aconteceu: ela ia estar presente num encontro a que eu pretendia ir também.
4
Foi a única vez que estiveram juntos, mas esse encontro ficou para sempre na memória de ambos.
5
Na verdade, só muito tempo depois soubemos que nos tinhamos finalmente encontrado. Era Outono, a cidade era Huelva, um encontro de editores independentes, o dia uma terça-feira, um fim de dia triste, cinzento e chuvoso. À saida da aeroporto partilhámos um táxi. Para onde vai? Para o hotel Iberia. Eu também. E se fossemos jantar depois? Porque näo? Jantámos, conversamos, dormimos juntos e nem por uma vez dissemos os nossos nomes. Só no outro dia, já tinhas ido embora, soube que finalmente nos tínhamos encontrado.