23.4.06

O anel



1


Enquanto subia a imponente escadaria da National Gallery, pensava no dia em que se tinham conhecido, num congresso de História da Arte, em Lisboa. Faziam parte do mesmo painel e, depois da sessão, ficaram a conversar sobre os temas que os tinham levado até ali. Viviam em duas cidades diferentes, em dois países diferentes, mas ambos passavam muito tempo em viagem. Como é habitual nestas situações, trocaram contactos.

Menos habitual, mas igualmente verosímil, foi o facto de esses contactos terem sido usados, nas semanas e meses que se seguiram ao congresso. Na verdade, passaram a comunicar quase diariamente por e-mail. Numa dessas mensagens, descobriram que iriam estar em Londres na mesma semana e ficaram de combinar por telefone um encontro, algures.

Dois dias depois de ter chegado à cidade, ele ligou-lhe e ela, que tinha pensado em mil hipóteses de lugares para se encontrarem, ficou bloqueada pela pressa do momento. Acabou por responder a primeira coisa que lhe ocorreu e que, agora que subia a escadaria, lhe parecia uma opção um pouco estúpida. Tinha sugerido esperar por ele em frente ao seu quadro preferido: o Retrato dos Arnolfini.

2


Na fotografia estão os dois de pé, ele ergue o braço direito num gesto equívoco e com a mão esquerda segura a dela, que repousa na dele, mas a semelhança com o Retrato dos Arnolfini de Jan Van Eyck termina aí. Ambos sorriem e o ambiente que os rodeia é isento de mistérios. Quem olhe a fotografia pode pensar que são um casal ou apenas dois amigos. Há uma leveza nas suas expressões que indica que estão apaixonados, mas essa talvez não seja uma conclusão segura. Olham os dois para a objectiva, e não um para o outro e, por estranho que pareça, essa circunstância aproxima-os mais do que os afasta, pois é como se partilhassem o mesmo olhar.

3


A fotografia foi tirada alguns meses depois daquele encontro na National Gallery.

Eu cheguei antes dele e fiquei mais de meia hora em frente ao Retrato dos Arnolfini, à espera que o tempo passasse e que ele aparecesse. Enquanto esperava, lembrei-me de muitas coisas que tinha lido sobre o quadro. Entre detalhes acerca dos personagens, do cenário e da paleta de cores, havia um dado que me parecia particularmente curioso e que era o facto de, supostamente, a cena representada corresponder a um noivado e não a um casamento, como muitos supõem.

Pensava nisto quando me lembrei do meu anel de noivado. Não fazia sentido ostentar aquele anel demasiado valioso numa cidade onde ninguém me conhecia e, sobretudo, num encontro em que o mesmo podia suscitar perguntas para as quais eu não tinha respostas convincentes. Na realidade, eu tinha cada vez mais dúvidas quanto ao anunciado casamento. Voltei a olhar fixamente para o quadro e decidi tirar o anel do dedo. Com um gesto contínuo, passei-o para a palma da mão, enquanto decidia qual o melhor sítio para o guardar. Nisto, pareceu-me reconhece-lo, ao fundo da galeria. Sim, era ele. Apressei-me, então, a guardar o anel na mala mas, sem que pudesse perceber como, ele deslizou-me da mão e caiu no pavimento, precisamente por entre as grelhas metálicas do ar condicionado.

4


Olho a fotografia em que os dois mimamos o Retrato dos Arnolfini e penso como esse quadro – o preferido dela – se tornou uma espécie de ex-libris do nosso relacionamento, ambíguo, misterioso. Lembro-me do nosso encontro na National Gallery, em frente a esse quadro – local escolhido por ela – e como tudo se complicou desde então. O nosso relacionamento nada tem de simples, mas não é por isso que me agrada menos, ainda que curiosamente, me agrade sobretudo pela possibilidade que encerra de se tornar simples. Ao contrário dela, não gosto de coisas complicadas, e o nosso gosto artístico reflecte essa diferença. Lembro-me da paixão com que falou do seu quadro preferido e, ainda que não concordasse de um todo com os motivos, foi-me impossível não me entusiasmar também. Um casamento, um noivado, uma traição… interrogava-se ela, fazendo desse tema o centro de discussão do quadro enquanto eu, prosaicamente, me espantava com o pequeno cão ridículo que não aparecia reflectido no espelho.

5


Entretanto, ele aproximava-se e eu não sabia o que fazer em relação ao anel. Seria fácil recuperá-lo? A quem poderia pedir para abrir a grelha do ar condicionado? Daria para abrir ou seria preciso desmontar a peça inteira? Tentei ser optimista: talvez o anel estivesse a pouca profundidade e eu própria conseguisse retirá-lo com uma pinça... Ainda pensei em baixar-me o suficiente para espreitar entre os perfis metálicos, mas desisti no mesmo instante porque, se o fizesse, ele, agora a poucos metros de mim, iria certamente reparar no movimento insólito e perguntar-me o que procurava. Tentei, por isso, fazer um ar natural e adiar o problema do anel para mais tarde.

6


Cheguei sem grandes dificuldades ao piso 2 da ala Sainsbury, onde se encontram os quadros de 1250 a 1500, e segui por ali adiante até a encontrar, de costas para o Retrato dos Arnolfini, parecendo incomodada. Confirmei a hora a que tínhamos combinado, não fosse eu ter-me baralhado e estar atrasado, mas ela logo me sossegou, tomando-me a mão direita nas suas, num gesto que muito apreciei. Perguntei-lhe se queria comer qualquer coisa no restaurante, no piso 1, e ela aceitou, acrescentando que adorava as empadas e as tartes, todas elas servidas com uma pequena salada.

7


Olhei discretamente para o relógio: duas e um quarto. O museu fechava às seis, o que significava que eu tinha quase quatro horas para tentar reaver o anel. Pareceu-me que era tempo suficiente para me permitir descontrair um pouco, desfrutando da companhia dele, sem pensar no anel de noivado perdido, algures, no sistema de ar condicionado de um dos maiores museus do mundo.

8


Ainda deitei os olhos ao quadro antes de sairmos e não é difícil de adivinhar que o meu olhar caiu no enigmático cão que não aparecia reflectido no espelho. O cão costumava simbolizar a fidelidade e talvez essa fosse uma pista importante para a leitura do quadro. De repente lembrei-me que ela tinha um cão, grande e negro, nada parecido com o do quadro, a quem passei a referir-me como Arnolfini, perante o olhar divertido mas mesmo assim algo ameaçador dela.

9


Passámos o resto da tarde na National Gallery, entre o restaurante da ala Sainsbury e as salas de exposição, deambulando de quadro em quadro, conversando sobre tudo e sobre nada. Apesar de ter conseguido abstrair-me momentaneamente do anel, uma imagem perseguiu-me o tempo todo: o olhar frio do noivo Arnolfini e a sua mão esguia, erguida do num gesto de possível reprovação...

10


Antes de sairmos resolvi ir dar uma última olhada ao Retrato dos Arnolfini e, como ela declinou o convite, fui sozinho. Parei em frente ao quadro, a alguma distância dele, sobre a grelha de ventilação, e quando olhei para baixo, à cautela, vi algo brilhar. Baixei-me, espreitei de lado através do gradeado, e vi um anel, que retirei com alguma facilidade, usando um lápis. Não estava mais ninguém ali, guardei o anel no bolso, olhei o noivo Arnolfini que me parecia olhar com reprovação, e voltei para ao pé dela, que me recebeu com um sorriso que logo desapareceu mal lhe mostrei o anel, em silêncio.

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Aproximou-se de mim com a mão direita fechada, como se guardasse alguma coisa. Eu sorria, levantando-me do banco onde tinha ficado à espera que ele voltasse da visita ao Retrato dos Arnolfini. Depois de um breve instante de silêncio, aconteceu a revelação. Encontrei isto perto do quadro, disse, e estendeu a mão direita, agora ligeiramente aberta, amparando o meu anel. Senti a respiração intermitente e o pulsar do coração oscilando, para cima e para baixo, na garganta. Milhares de palavras sem nexo passavam diante de mim, como imagens em movimento. Não conseguia agarrá-las e muito menos agrupá-las numa frase qualquer que fizesse o mínimo sentido.

Indiferente à minha inquietação, ele segurou a jóia com a ponta dos dedos e acrescentou: é um belíssimo anel, não achas? Esbocei um gesto de confirmação, com um sorriso pouco expressivo. E antes que pudesse encontrar uma única palavra, ele disse: tenho a certeza que te fica bem, deixa ver... Dizendo isto, segurou a minha mão esquerda e fez deslizar suavemente o anel ao longo do dedo. Depois sorriu, aparentemente deslumbrado com a perfeição do ajustamento. É como se tivesse sido feito à tua medida, afirmou, agora com as duas mãos em volta da minha, ainda trémula. Acho que devias ficar com ele.

Fechei ligeiramente os olhos em sinal de acordo e voltei a sorrir, mas desta vez mais tranquila.

12


Na fotografia em que os dois aparecem a mimar o retrato dos Arnolfini, tirada por um sorridente turista japonês, poderemos, se deixarmos o olhar vaguear, encontrar
subitamente
na mão esquerda da mulher
estranhamente pousada sobre o coração, um anel que contrasta, no elevado valor que se lhe adivinha, com a simplicidade das roupas dela e da própria ocasião. E nesse anel adivinha-se uma história por contar. É ele o centro da fotografia, e todos os outros elementos se organizam à sua volta.

15.4.06

TODOS OS DIAS



1

Encontrámo-nos num congresso. Fazíamos parte do mesmo painel e falámos um a seguir ao outro. Primeiro ela. Depois eu. Um e outro gostávamos de ser estrelas, e brilhámos, o mais possível. Eu segui atentamente o que ela disse. Fiquei fascinado. E acho que o mesmo se passou com ela quando eu fiz a minha apresentação. Não sabíamos nada um do outro e ficámos bastante interessados em saber mais. Sentimo-nos atraídos, sentimos que tínhamos algo em comum. Mas a verdade é que os contrários também se atraem.
2

Escreveu rapidamente, sem uma hesitação e enviou a mensagem de seguida.

Na mesma cidade, à mesma hora, ela também escrevia a alguém.
3

Conheci-o num congresso. Fazíamos parte do mesmo painel. Falámos um a seguir ao outro, primeiro eu, depois ele. No escuro do auditório, enquanto passava os meus slides, percebi que ele seguia atentamente o que eu dizia. Sentia-o respirar ao meu lado, na mesa. Depois assisti à apresentação dele e reparei na forma discreta como, entre algumas frases, desviava o olhar da plateia para confirmar que eu sorria, atenta e fascinada. Não sabíamos nada um do outro. Naquele momento, sabíamos apenas alguma coisa sobre temas que nos interessavam ou ocupavam. Mas ficámos com vontade de saber mais. Sentimos que tínhamos algo em comum, como se confirmou, de resto, mais tarde. Durante este tempo todo, descobrimos também que as diferenças nos unem tanto como isso que, desde o princípio, sentimos que tínhamos em comum.

4

O que atrai as pessoas, o que as impele umas para as outras? A resposta é sempre difícil, recorramos a explicações biológicas ou de carácter social. E então quando se trata de homens e mulheres ainda é mais difícil. Confesso que me sinto atraído pela inteligência, ou melhor ainda, pela paixão do conhecimento, pela paixão que alguns conseguem colocar nas suas acções. Gosto de pessoas apaixonadas, de pessoas lucidamente apaixonadas. E de pessoas livres. Isto aplica-se às mulheres. Gosto de mulheres inteligentes e apaixonadas pela vida. Este deve ser um dos motivos que não tenho sorte nenhuma ao amor. Sim, porque além do mais, acredito no amor. E procuro-o. E desespero.

5

Queria explicar à amiga como aquilo acontecera mas não conseguia. Por isso, resolveu terminar a mensagem assim, entre diferenças e afinidades.

Enviou o mail e ficou parada, em frente ao monitor, a olhar para uma imagem de fundo com uma praia onde nunca estivera. Ficou a pensar na situação, em como tudo começara e como tinham chegado até ali. Era a primeira vez que tentava encontrar uma explicação.

O que atrai as pessoas, o que as impele umas para as outras? A resposta é sempre difícil, pensei, enquanto procurava explicar a mim mesma como tínhamos chegado até ali. Gosto de pessoas livres, atentas, apaixonadas. Acho que foi isso que nos uniu, desde o princípio: sentir que estávamos ambos livres para dar atenção um ao outro e partilhar paixões. Gosto de pessoas que vivem permanentemente apaixonadas por pequenas coisas. Gosto de pessoas que se emocionam com apontamentos, fragmentos, detalhes. "Deus está nos detalhes" dizia Mies e tinha razão. Ainda tem.

6

Na noite do dia em que se conheceram ele telefonou-lhe.
Quando desligou não sabia muito bem o que tinha dito. Mas estava contente. Não sabia muito bem porquê.

7

No mesmo dia em que o conheci, pensei em ligar-lhe. Quando cheguei a casa tirei o cartão da mala e segurei-o hesitante entre os dedos. Depois pousei-o em cima da mesa e peguei-lhe outra vez. Reli o nome e os contactos que já sabia de cor. Era um cartão simples, com letras cinza-chumbo impressas sobre um fundo cinza-claro. Um único tipo de letra, dois tamanhos. Simples, sóbrio, impecável.

8

Não conseguia explicar porquê, mas sentia uma vontade quase incontrolável de lhe ligar e, ao mesmo tempo, concretizar essa vontade parecia não fazer qualquer sentido.

9

E agora, leitor, o que vai acontecer? Talvez este relato devesse terminar aqui. Lançados os dados, o que acontecer acontecerá, por assim dizer. Encontraram-se, sentiram-se atraídos e… afastaram-se. Porque não? E voltaram-se a encontrar? Talvez. Cada encontro é o princípio de um desencontro. E para que haja uma história é preciso apenas um homem e uma mulher. E que se encontrem. E que se desencontrem. Ou até que nunca se encontrem. Seria possível escrever a história de um desencontro? De como duas pessoas nunca se encontraram? Claro que sim, os desencontros são muito mais constantes que os encontros. Mas voltando à nossa história. Eles encontraram-se, trocaram olhares, números de telefone e endereços de correio electrónico. E ele telefonou-lhe…

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Depois de desligar sentiu-se completamente tonta. Mas, sem perceber bem porquê, sentia-se ao mesmo tempo muito contente. Tinha perguntado pelo menos cinco vezes se estava tudo bem. E ele, não menos tonto que ela, tinha respondido pelo menos cinco vezes que sim e devolvido a mesma pergunta. Contudo, no meio dessa repetição patética, ele tinha conseguido introduzir uma outra pergunta: "queres tomar um café amanhã?" Ela, dominada pelas frases anteriores, não conseguiu encontrar uma resposta diferente de "tudo bem". E ficaram assim, completamente tontos e, por isso mesmo, muito contentes, à espera do dia seguinte.

11

No dia seguinte não nos encontrámos. Nunca cheguei a telefonar-lhe. E não foi porque me esquecesse de o fazer ou o telemóvel caísse na sanita destruindo a memória do seu número de telefone. Foi talvez porque me assustei, como disse o João, ou porque não tive paciência, como lhe respondi, para começar tudo de novo. A verdade é que eu levo as coisas muito a sério, demasiado a sério, lembrou-me ele, e depois concluiu o assunto dizendo que, afinal de contas, ela também não me tinha telefonado. Não percebi se, na sua opinião, isso lhe dava a vitória, ou tínhamos ficado empatados.

12

Na manhã a seguir ao dia em que não nos encontrámos, saí de casa demasiado tarde para chegar a tempo à reunião. Para reduzir o atraso ao mínimo, resolvi apanhar o primeiro taxi que passou livre por mim. Indiquei o destino com uma ansiedade mal disfarçada e o taxi avançou, de imediato, em direcção ao semáforo vermelho. Acelerar para travar apenas uns metros à frente parecia-me absurdo. Porque é que ele não me tinha ligado? Faltavam cinco minutos para a reunião começar e eu não ia chegar a tempo. Porque é que eu não lhe tinha ligado? O semáforo ficou verde e o taxi avançou novamente, em direcção ao próximo cruzamento. Faltavam três minutos e eu ainda estava longe. Procurei um gloss na mala. Não conseguia encontrar um bom motivo para ele não me ter ligado, nem um bom motivo para eu não lhe ter ligado. Finalmente, encontrei o gloss. Mais um cruzamento. Desta vez o sinal estava aberto mas o taxista abrandou, com uma hesitação de percurso: O melhor caminho é sempre em frente, não acha? Disse-lhe que sim e, de repente, aquela frase pareceu-me uma metáfora. Estava na hora da reunião e eu ainda não estava perto. Mas estava a caminho. E o melhor caminho era sempre em frente. Decidi ligar-lhe nessa noite.

13

E no dia seguinte ela ligou-me. Acho que a primeira coisa que pensei foi o que diria agora o João, embora isso pouco me importasse na altura. Ao contrário de quando lhe telefonei, lembro-me praticamente de tudo o que foi dito, quase palavra a palavra, mas também não é menos verdade que pouco falei.

14

Embora ela estivesse absolutamente determinada a ligar-lhe, precisou de comer um pacote de pastilhas de hortelã-pimenta e de beber três copos de água mineral, antes de pegar no telefone.

15

Às vezes parece que damos saltos no tempo, para a frente ou para trás, ou talvez tudo aconteça ao mesmo tempo. Pelo menos aquilo que já aconteceu. E o que vai acontecer. Acontece ao mesmo tempo. Pode acontecer a qualquer altura. Às vezes acredito que a escrita é como o tempo, é a imagem mais perfeita que podemos ter do tempo. E a memória. E a imaginação. Mas tudo isto porque pensava no dia em que nos voltámos a encontrar. E nos dias que se seguiram. Já tudo aconteceu. Mas a escrita faz acontecer tudo de novo.

De tudo o que aconteceu, se tudo tivesse desaparecido, teria ficado um poema, ou esboço de poema, se é que algum poema está acabado, há muito esquecido entre duas folhas de um romance, ainda que a sabedoria que ele me revelou se mostre ainda viva em mim.

Contigo aprendi o amor
Porque eu já amara antes
É verdade
Muitas e muitas vezes
Amara
Metodicamente
Às cegas
Repetindo todas as palavras
Que é habitual dizer-se
Repetindo todos os gestos
Que é habitual fazer-se
E não conhecia o amor
Amava apenas
Com quem percorre um caminho
Pela primeira vez
E não sabe onde o poderá levar
E agora
Agora eu sei o amor
Mas nem por isso
Deixei de amar
como antes amava
Amo como quem não sabe
Amo, amo apenas.

Ela nunca o leu. E estou quase certo que não gostaria dele.

16

Fui ter com ele ao sítio combinado. À hora certa já estava perto.
Era um café de vidro, com um desenho despojado e moderno. Não se parecia nada com um coreto, nem com uma estufa. Para mim, parecia-se mais com uma carruagem transparente que, por qualquer motivo, descarrilara ali, no meio do parque. Talvez, em tempos, tivesse sido uma carruagem normal, de um vulgar comboio mas, depois, perdida a linha e condenada ao abandono, tinha-se esvaziado progressivamente até ficar transparente...Pensei nisto enquanto me aproximava do volume de vidro. Enquanto tentava perceber se ele já tinha chegado. Enquanto tentava distrair uma ansiedade sem motivo.

17

Cheguei primeiro do que ela, não porque ela tivesse chegado atrasada, mas porque eu cheguei mais cedo. Meia hora mais cedo para ser exacto. Ela chegou à hora marcada.

18

Ali estava ele, sentado, aparentemente tranquilo. Por momentos ela receara que ele não viesse. Mas ele estava ali, sentado, aparentemente tranquilo. Ainda bem que vieste, disse ela. E, dizendo isto, puxou a cadeira mais próxima e sentou-se.

19

Ficaram os dois em silêncio, olhando-se, sorrindo, aparentemente tranquilos. Bonito, disse ele, quebrando o silêncio, e tomou-lhe a mão direita para olhar melhor o anel que se destacava na sua mão esguia. E ficaram assim, olhando-se, sorrindo. Sentiam-se bem, mas a alegria que sentiam, pesava-lhes, tornava-lhes lento o raciocínio, atrapalhava-lhes os movimentos, incomodava-os de um forma subtil mas poderosa. Várias vezes tentaram sacudir esse torpor mas não conseguiam, e foram-se calando, olhando-se, sorrindo. Da mesma forma que poderiam ter falado sem parar, assim se calaram, e os gestos tornaram-se pesados e raros. A certa altura ele tentou agarrar o copo, mas a sua mão não lhe obedeceu, e embateu no copo, derrubando-o, espalhando o sumo de laranja espesso pela mesa, que correu como um rio revolto. O vestido claro ostentava uma enorme mancha, no entanto ela sorria ainda, enquanto ele se desfazia em desculpas. Acho que vou a casa mudar de vestido, e quanto mais rápido melhor, disse ela.

20

Ainda bem que isto aconteceu, pensei. Precisava de sair do café o mais depressa possível, antes que a camada de laranja líquida secasse sobre o vestido. Precisava de aproveitar o instante em que as palavras tinham surgido para dizer que me ia embora, antes que elas ficassem de novo suspensas. Precisava de me afastar, antes que o meu desejo se tornasse mais transparente que o próprio edifício, no meio do parque. Tinha sido insensato ligar-lhe e, contudo, não me arrependia. Pelo menos, por enquanto.

21

Deixa-me oferecer-te um vestido novo, disse eu, e arrependi-me de o ter dito ainda nem o tinha acabado de dizer. Mas já o tinha dito e, como muitas vezes me acontece, tentei emendar o erro insistindo nele. Havia um centro comercial ali mesmo ao lado, até seria divertido, e assim não precisávamos de nos separar já, era a melhor solução, seria como um presente de aniversário, tudo isto eu disse e voltei a dizer sem saber já muito bem o que dizia. E insisti, Vai ser divertido, vai ser divertido. Às vezes posso ser muito convincente e quando ela deu por isso já eu a levava na direcção do centro.

22

Ele insistiu tanto na ideia de irmos comprar outro vestido que eu me deixei levar até à porta do centro comercial. Contudo, à entrada, senti que não podia prosseguir. E fiquei parada, à espera que me ocorresse uma frase, debaixo do sensor das portas automáticas que deslizavam para cá e para lá, abrindo-se e fechando-se ao mesmo ritmo. Ao meu lado, ele continuava a repetir que era a melhor ideia, que sim, que ia ser divertido comprar outro vestido. E eu parada, em frente às portas de vidro espelhado, a ver a enorme mancha de sumo no meu vestido claro, de cada vez que elas se aproximavam, para logo deixar de ver, quando elas se voltavam a afastar, deslizando para cá e para lá ao mesmo ritmo.

23

"É melhor eu ir para casa", disse ela de repente, num tom que não admitia contestações.
E eu olhei-a, sem nada dizer.
Não me arrependia de ter insistido com ela para comprar o vestido, nem mesmo de mostrar que me apetecia estar com ela, pois era afinal disso que se tratava, mas as mulheres são sempre muito complicadas, mesmo as louras, e por um momento o que me apeteceu foi dizer-lhe adeus e ir-me embora.
Mas fiquei calado.

24

Está bem, disse ela, convenceste-me. Nesse mesmo instante, as portas deslizaram outra vez para os lados e eles entraram no centro comercial, para comprar um vestido.

25

Primeiro, parecia que queria ir para casa e deixar-me ali, e estava determinada, logo depois aceitou ficar, como se fosse natural. Eu sempre digo que as mulheres são complicadas, mas a verdade é que também acho os homens complicados, a começar por mim, pelo menos no que diz respeito às relações entre os homens e as mulheres. Mas o que complica qualquer relação é a insegurança, o facto de muitos de nós não sabermos o que queremos, ou queremos várias coisas em simultâneo que não são compatíveis. Acredito que complicamos as coisas. Acredito também que nem sempre é fácil manter as coisas simples. Mas foi o que acabou por acontecer. Entrámos numa loja e eu sentei-me, em frente aos vestiários, enquanto ela provava vestidos um atrás do outro numa espécie de jogo, e por momentos fomos apenas duas crianças que brincavam com um sorriso nos lábios. Não podia ser mais simples.

26

Acabei por sair do shopping com um vestido que nunca imaginaria usar. De resto, nunca tinha tido um vestido com flores porque sempre me parecera um pouco Kitsch usar roupa às flores. No entanto, naquela tarde, depois de experimentar dezenas de vestidos, tinha escolhido o mais improvável e, estranhamente, parecia-me perfeito. Às vezes, a vida consegue impor-nos uma simplicidade que, se estivesse directamente nas nossas mãos, acabaríamos por recusar.

27

A partir daquela tarde, passámos a encontrar-nos todos os dias.

28


FIM?